De
peito aberto
Eu
gostaria de compartilhar com todos uma experiência pela qual passei
pela vontade do nosso Senhor neste ano de 2005. Este
titulo tem duplo sentido. O primeiro é o sentido literal. O segundo
um sentido literário.
No
dia 10 de agosto senti fortes dores na boca do estomago, da mesma forma
que sentira no mês de março de 2005 e que me levou na primeira
vez ao Complexo Hospitalar Padre Bento (l7 dias) e da segunda ao Servidor
Público Estadual (49 dias).
Como diabético, sou assintomático, tanto que da primeira
vez fiquei internado 17 dias, três dias na enfermaria do pronto
socorro e 14 dias na enfermaria do Complexo Hospitalar recebi vários
diagnósticos. O primeiro foi Infarto Agudo do Miocárdio,
descartado quando examinado pela médica cardiológica, no
pronto socorro. Depois, foi Hérnia de Hiato, feito a endoscopia
constatou-se uma forte gastrite medicamentosa. Por fim, diagnóstico
que eu sai do hospital, foi o de Angina, tendo procurado um cardiologista
e feito exames mandou-me a um endocrinologista, pois, concluiu que eram
problemas com obesidade.
Isto me levou a refletir! Porque será que Deus me colocou naqueles
hospitais por tanto tempo? A final para tudo Deus tem um plano, tudo mesmo.
Revivendo em minha memória, repassei todos os acontecimentos naqueles
períodos.
Ao entrar na enfermaria do Complexo Hospitalar, orei a Deus e pedi o seu
direcionamento e sua benção para a minha vida e para a vida
daqueles que estavam comigo e se possível quando eu saísse
todos pudessem sair comigo.
Quero abrir um parêntese e dizer quem há alguns anos estive
internado no Servidor Publico Estadual com um forte processo infeccioso
durante uns 27 dias por cousa da “diabetes millitus”. Confesso
que a experiência não foi muito boa. Isolado, senti-me como
“esquecido por Deus” naquele quarto. Ao voltar para casa imaginei
como seria bom se a igreja formasse homens e mulheres, voluntários,
para dar assistência, amor, caridade, àquelas pessoas que
como eu sentiam-se daquela forma. Isto já faz mais de 15 anos,
e não se falava ainda sobre voluntariado em hospitais.
Coloquei o desafio para os meus pastores na época, e tenho tentado
o mesmo até hoje sem obter êxito para este desafio. Depois
de seis ou sete anos foi que eu ouvi pela televisão que a igreja
Católica Romana iniciara algo parecido com aquilo que eu denominei
“Serviço Voluntário”
Voltando.
Com esta experiência, passei a fazer alguma cousa, por mim e pela
outras pessoas que estavam internadas no meu quarto e nos outros também.
Conversava, dava alimentação, alegrava, estimulava, animava,
procurava levantar a alto estima de todos inclusive dos acompanhantes
que ficavam com seus doentes, tanto que em todas as horas de visita os
guardas queriam me por para fora, literalmente, pois, pensavam que eu
era um visitante.
Quantas experiências maravilhosas eu pude vivenciar naqueles 17
e 49 dias de internação.
Três experiências no Complexo Hospitalar:
1) No quarto 01 o meu leito era o de numero 04. Logo que cheguei ao meu
lado, tinha um senhor com Mal de Alsaimer que dormia há três
dias. Um homem da noite, músico, fora muito rico e ali largado
pela família só recebia a visita da companheira uma vez
por semana e olha lá. Num determinado dia da semana entrou, no
quarto, uma senhora muito falante e risonha, acordou o companheiro e tentou
lhe dar o que comer. Cedado e muito mal humorado, não quis comer.
Coloquei em meu coração que iria tirá-lo daquela
situação, conversei com algumas enfermeiras, que também
estavam incomodadas com aquela situação, e me comprometi
a cuidar dele. Por fim, o homem acordou e passou a se alimentar muito
bem, comia o que era dele e dos companheiros de quarto. Depois de algum
tempo fiquei sabendo que a esposa dele era da igreja anglicana e podemos
muito falar sobre o grande amor de Deus e suas misericórdias;
2) No leito 02, havia outro senhor, com a mesmo enfermidade só
mais leve, estava no inicio, ainda, Sr. Luiz. A família o acompanhava,
percebia-se claramente que a família o fazia com muito sacrifício
principalmente o período noturno, até que uma enfermeira
falou que a família não precisava passar a noite no hospital.
Falou-se uma única vez. Resultado, sobrou para a enfermagem e pra
mim que não conseguia dormir preocupado com o sr. Luiz que estava
com sonda e queria levantar a todo custo. Com esta família foi
interessante a experiência. Havia uma senhora espírita mas
aberta para outras doutrinas e experiências. Com ela tive de usar
toda minha experiência na palavra e na vida cristã, ao fim
de algumas interpelações percebia-se que o Espírito
de Deus pode trabalhar em sua vida e coração. A família
era da Assembléia de Deus.
3) No quarto dois havia outro senhor também chamado Luiz. Acometido
por um Derrame Cerebral tinha os membros bastante atrofiados e uma das
mãos e parte das pernas amputada. Meu primeiro contato com ele
foi à presença de sua filha que estranhou muito nosso contato,
pois, eu falava e o homem entendia tudo o que eu falava balbuciando algumas
palavras, a moça ficou impressionada, pois, ela muito pouco conseguia
de resposta de seu pai. No correr dos dias percebi o porque disto acontecer.
A forma com que ela tratava o pai, com gritos e agressões, era
o motivo, ela não tinha tempo para ouvir o seu velho pai. Tive
oportunidade de compartilhar com ela minha experiência no ano de
2000, quando foi acometido de uma Isquemia Cerebral com enfraquecimento
no lado direito. Mas, uma coisa não me faltou e foi a memória
e mente. Eu ouvia e entendia tudo o que se falava ao meu redor. Ela entendeu
o que eu quis transmitir a ela e mudou seu comportamento com o seu pai
a partir daquele momento.
Varias
foram às manifestações de estranheza e perplexibilidade
da enfermagem em relação àquela atitude que decidi
e realizei naquele hospital, pois, mudou a vida de alguns pacientes facilitando
o seu trabalho, nos dias em que por ali estive internado.
No mês de agosto no dia 10 de 2005, fui internado, outra vez, com
os mesmos sintomas só que agora no Hospital do Servidor Publico
Estadual.
E ali, naquele hospital, entrei pelo pronto socorro e 3 no outro dia fui
encaminhado para a Unidade Coronária – UCO, depois vim a
saber que esta unidade é para casos graves ou delicados.
Ali fiquei por cinco dias até estabilizar o Infarto com mais três
pessoas, Dona. Dulce, eu, Sr. Jaime e o Sr. Luiz. Dona Dulce era uma mulher
sírio-libanesa de tradição católica, mas simpatizante
do espiritismo. Seu Jaime um senhor de oitenta e poucos anos, português,
segundo ele anarquista e escritor. O senhor Luiz era um nordestino e foi
o primeiro de nós a “abrir o peito”, muito simples
e muito querido de sua família. Mais uma coincidência, todos
fomos transferidos, para o 8º andar – Cardiologia, no mesmo
dia.
Na UCO fizemos gostosas amizades, e praticamente nos tornamos “assexuados”,
pois, nossas necessidades, a um e a dois, eram feitas diante de todos,
sem constragimentos, isto porque não podíamos levantar dos
nossos leitos tamanha fragilidade de nossas saúdes. O pessoal que
nos atendeu demos nota 10(dez) e percebemos que houve uma grande mudança
nos procedimentos hospitalar, tornaram-se mais humanos, os pacientes eram
vistos como pessoas e havia uma aproximação muito grande
do pessoal e os pacientes.
No pessoal eu detectei muitos evangélicos, havia: presbiterianos,
adventista, renascer, neo-petentecostal, mas, também tinha muitos
espíritas e espiritualistas. Isto vem provar minha tese que “a
religião é o agente moderador da sociedade” no que
concorda o Rev. Mendonça em seu livro “Louvor Perene”.
No oitavo andar, encontramos 46 pessoas, nas mesmas situações,
só que tristes, outros desanimados (as) e depressivas (os), era
como se estivéssemos no “corredor da morte”, que não
deixava de ser verdade, pois, não sabíamos se viveríamos
ou não, após os procedimentos cirúrgicos que nos
esperavam.
Ali
ficamos mais vinte e um dias até a nossa operação.
No mesmo espírito, eu e Dona Dulce resolvemos mudar o estado de
espírito de nossos companheiros e começamos a visitar os
quartos e conversar, brincar, animar e orar com aqueles que pediam oração
depois que descobriam que éramos cristãos. Aos poucos a
auto estia dos pessoal foi mudando e as altas foram ficando cada vez mais
rápidas, os médicos não entendiam o que estava acontecemdo.
Da
mesma forma, algumas experiências interessantes aconteceram conosco
nos 50 dias que ficamos ali internados.
Primeira
Experiência:
Como
da vez que fiquei internado no Complexo Hospitalar, em Guarulhos, encontrei
pessoas de diversas religiões e entre eles um japonês que
era americano, seu nome era Bill e Yoshi em japones. Percebíamos
que ele estava muito preocupado com seu estado de saúde. Tinha
muitos livros, artigos, que tratavam sobre transplante de válvula
mitral, mas, como bom oriental estava muito tranqüilo. Logo nos identificamos,
ele era Metodista, muito embora se considerasse ovelha desgarrada, pois,
por cousa das situações que a vida nos impõe afastou-se
da igreja. Afastou-se da religião indo para o interior de São
Paulo trabalhar para ajudar seus familiares.
Contava ele, que por volta de 1958, na Igreja Metodista da Liberdade,
era professor da escola dominical e muito ativo na igreja, e que nos anos
de 1975 freqüentava, muito nosso seminário em São Paulo,
principalmente, na Semana Teológica, pois, gostava muito de ouvir,
pela identificação, as palestras.
No dia anterior de sua operação, eu fui orar e ler a palavra
de Deus com ele e a dona Dulce estava em seu quarto. Lemos a Palavra,
um salmo, e pudemos falar a ambos sobre o amor de Deus e sua fidelidade,
especialmente, ao Sr. Yoshi deixei uma pergunta. Será que não
estava na hora dele voltar à igreja? O que ele concordou comigo.
Oramos
Pela manhã do dia seguinte ele seguiu as 7h00 da manha para a sala
de operação, depois de seis horas as noticiais não
era muito boas. Ele teve uma hemorragia duas horas depois e voltou à
mesa, aí não voltou mais. O Senhor o recolheu.
Segunda
Experiência
Foi
com a dona Dulce. Nos seus 69 anos é uma mulher alegre, anarquista,
segundo sua definição e muito extrovertida. Professora aposentada
moradora de Jaú veio há São Paulo trazer seu filho
para um tratamento delicado de cérebro no Hospital Beneficência
Portuguesa. Sua história e muito parecida com a minha. Em Jaú,
também foi internada com sintomas de infarto e não foi diagnosticada
pelos médicos que a atenderam e novamente, em São Paulo,
teve os sintomas e foi levada ao Servidor Público e ficou internada,
pois, seu caso era muito grave também.
Nos encontramos na UCO e logo nos identificamos e começamos ali
uma gostosa amizade.
É interessante como a máxima “é na dor que
procuramos a Deus” se torna uma grande realidade. Foi o que aconteceu
com a dona Dulce. Logo ela me identificou como uma pessoa com uma fé
diferente da dela. A partir deste momento nossas conversas se tornaram,
como direi “mais filosófica ou teológica”, como
boa historiadora da educação.
No oitavo andar, foi bastante interessante. Ela solicitava que eu fosse
todas as noites em seu quarto ler o salmo e orar com ele, e em suas visita
a outros quartos quando sentia que o paciente precisava de uma palavra
de estimulo e animo, me chamava para juntos, conversarmos com as pessoas.
Assim foi os quase 21 dias que passamos internados ante de nossas operações.
No dia 29 de agosto, dia anterior a sua operação, me preparava
para visitá-la e com ela orar quando adentrou meu quarto cobrando
minha ida ao seu quarto para ler o salmo e orar com ela. Tomei minha bíblia
e fomos até o seu quarto onde li um salmo que falava sobre a fidelidade
de Deus e que Ele estava atento às necessidade de seu povo. Expliquei
isto a ela oramos e retornei ao meu quarto.
As informações sobre a sua operação, no inicio
foram as melhores. De repente, começaram a chegar informações
que a recuperação complicara sendo necessário colocá-la
em coma induzido ficando desta forma por aproximadamente oito dias. Minha
operação foi no dia 31 de agosto, fiquei dois dias na UTI
e ela ficou por mais alguns dias, saindo do coma subiu para o quarto e
sua recuperação foi impressionante, rapidamente estava em
pé e andando, quanto a mim recuperava-me lentamente por causa de
minha obesidade e da isquemia que me acometeu no ano 2000.
Sua alta aconteceu um dia antes da minha. Foi até o meu quarto
para se despedir, ali tive a oportunidade de lembrá-la sobre a
fidelidade de Deus em relação à sua vida, pelos acontecimentos
recentes na sua vida. Disse: Deus sabe qual será o seu passo seguinte,
mas, eu, como um ser humano gostaria que este passo fosse na direção
de Deus e nos despedimos chorando é claro.
Muitas foram às experiências que Deus permitiu que eu tivesse
nesses períodos em que estive internado.
Sei também que muitos irmãos e irmãs já passaram
por esta experiência de terem seus “peitos abertos”
pelos homens, mas, eu me pergunto quantos tiveram a coragem de usar os
dias em que estiveram hospitalizados para demonstrar a sua fé,
o seu amor cristão em um ambiente onde podemos encontrar pessoas
de todas as religiões e fé. A minha experiência foi
bastante interessante onde Deus me fazer crescer ainda mais na fé
e aprender muito como homem e cristão.
Que Deus nos abençoe.
“Pela Coroa Real do Salvador”.
Wagner
J Costa |